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Notícia do dia 19/07/2010

Brasil sedia encontro entre índios da América do Sul


Frederico Schlottfeldt/ACT Brasil

Encontro de Saberes” reuniu sábios indígenas para troca de experiências e intercâmbio cultural. A utilização de curas tradicionais foi um dos assuntos de destaque

 

Foi numa Casa Tradicional, na Aldeia do Cartucho, no Médio Rio Negro II (Amazonas), que aconteceu a quarta edição do “Encontro de Saberes”, entre os dias 3 e 5 de julho, organizado pela Associação das Comunidades Indígenas e Ribeirinhas (ACIR), com apoio da Equipe de Conservação da Amazônia (ACT Brasil). O abrigo, construído pelos índios da etnia Baré para sediar o evento, reuniu cerca de 60 sábios indígenas (líderes espirituais) de diversas etnias da América do Sul, proporcionando um ambiente de trocas culturais entre os participantes e o fortalecimento de suas tradições.

 

A realização do evento é consequência da diminuição da importância do pajé nas aldeias, figura responsável pelo equilíbrio entre os seres, pelas curas e pela recriação do cosmos por meio dos seus ritos. As outras edições foram realizadas na Colômbia, em 2005, no Xingu (Brasil), em 2006 e no Suriname, em 2007.

 

Neste ano, estiveram presentes sábios dos seguintes povos: Waurá (Xingu-Brasil), Tiriyó (Suriname-Brasil), Ingano (Colômbia), Baré, Tukano e Arapasso (Médio Rio Negro II-Brasil), entre outros. Um dos assuntos mais abordados foi a utilização de curas tradicionais para a melhoria da saúde dos indígenas. “Foi maravilhoso perceber a importância que o nosso saber tradicional tem para a saúde indígena e que é possível juntar com o conhecimento do branco. Assim que chegar a minha comunidade vou levar essa ideia para a minha aldeia colocar em prática os ensinamentos que aprendi”, afirma Sebastião Jiahui, cacique da etnia Jiahui. Para Korotai Pumama, pajé de Suriname da etnia Tyrió, o Encontro aconteceu no momento certo. “O conhecimento da medicina tradicional está praticamente esquecido. Foi uma ótima oportunidade para reavivar e fortalecer o que se tem perdido, principalmente aos mais jovens”, explica.

 

A partir do evento, as histórias contadas e mostradas são repassadas por eles para as aldeias de cada um. “Os participantes compartilham a certeza de que é possível e necessário continuar praticando seus saberes e rituais porque, em outras partes do mundo, existem ‘irmãos de conhecimento’ vivendo em condições semelhantes às suas, sofrendo pressões e ameaças que eles mesmos sofrem e que, ainda assim, mantêm suas identidades indígenas”, avalia o antropólogo, Júlio Borges, que esteve presente em outras edições do evento.

 

Segundo ele, encontros como esse proporcionam condições para fortalecer a união espiritual entre os líderes indígenas. “Além disso, é uma forma de ajudá-los a construir uma fortaleza simbólica contra a expropriação de seus recursos naturais e saberes tradicionais”, avalia.

 

Dificuldade – Os habitantes da Aldeia do Cartucho, indígenas da etnia Baré, foram os participantes que, talvez, mais tenham tirado lições do Encontro. Até a realização do evento, as os modos tradicionais na aldeia estavam praticamente esquecidos. “Não criamos, com o passar dos anos, uma cultura que repassasse os ensinamentos às próximas gerações. Isso fez com que os nossos conhecimentos sobre curas e doenças quase que se perdessem por completo”, revela Vamberto Plácido Rodrigues, da etnia Baré e pai de sete filhos. “A partir de agora vamos começar a colocar em prática o que aprendemos no nosso dia a dia e poder ensinar os mais jovens”.

 

            Distante dessa realidade, a situação de algumas aldeias do Suriname e da Colômbia, representadas no evento, é completamente diferente. De acordo com o pajé Amashina Urewaru, da etnia Tyrió de Suriname, diz que o assunto é levado tão a sério em sua comunidade, que foi criado um hospital para atender os indígenas com tratamentos tradicionais. “Hoje tenho 200 pacientes que se consultam regularmente, entre indígenas e não indígenas. Acredito que o Encontro foi ótimo para percebermos o problema e podermos ajudar a Aldeia do Cartucho a se reerguer e a se fortalecer”, afirma o líder. “Esperamos que futuramente eles consigam se recuperar”.

 

            João Evangelista Tyrió, cacique da comunidade Boca do Marapí (Parque Indígena do Tumucumaque), partilha da opinião de Amashina. “No Encontro, vimos o que pode acontecer com uma comunidade se a situação não for controlada e se o conhecimento tradicional não for repassado às futuras gerações. É por isso que não podemos desperdiçar nossa cultura e deixar de valorizar o que temos de melhor”, diz.

 

O cacique Jose Enrique Miraña, da etnia Boa da Colômbia, disse que a partir da troca de experiências e culturas, a união entre as etnias só têm a aumentar. “Foi ótimo ver e aprender sobre as diferentes curas que já usávamos em nossa aldeia. Certamente todos nós só temos a crescer”, explica

 

Histórico – O crescente aumento de ameaças às Terras Indígenas motivou os pajés dos povos Waurá (Brasil) e Inga (Colômbia) a iniciarem uma série de intercâmbios com o objetivo de fortalecer os costumes, os saberes tradicionais de seus povos e praticantes. O primeiro passo nesse sentido foi a visita do tayta (pajé) inga Luciano Mutumbajoy a aldeia Piyulaga, do povo Waurá, em 2004.

 

No ano seguinte, foi a vez dos Waurá irem à Colômbia para conhecer a União de Médicos Indígenas Yageceros da Amazônia Colombiana – UMIYAC, coordenada pelo tayta Luciano. A UMIYAC tem desempenhado papel fundamental no processo de revalorização da medicina tradicional dos povos indígenas da Amazônia colombiana. Durante essa visita, o cacique e o pajé principal do povo Waurá, Atamai e Ysautaku respectivamente, e os taytas decidiram realizar um encontro que reunisse sábios indígenas de várias etnias para partilharem suas práticas de cura e para refletirem sobre formas eficazes de proteção e reconhecimento dos seus saberes.

 

Como convidados, participaram os representantes das "Seis Nações", habitantes do território, hoje atravessado pela faixa de fronteira entre o Canadá e os Estados Unidos: Ojibway, Tuscarora, Cree, Mohawk, Onondaga e Lakota. Da Colômbia vieram ostaytas, termo que empregam para designar o pajé, dos povos Kamsá, Inga e Siona. Da região fronteiriça entre Brasil e Suriname vieram membros dos povos Tiriyó (Brasil e Suriname) e Wayana. Assim, o tiriyó (família lingüística Carib), o waurá (família lingüística Aruak), o português, o espanhol e o inglês foram os idiomas falados durante os cinco dias em que os indígenas estiveram reunidos.

 

Além de participar dos rituais uns dos outros, os indígenas também compartilharam preocupações que lhes são comuns acerca da proteção dos seus saberes e do fortalecimento dos seus povos face às histórias de colonização vividas por cada um deles. Intérpretes teceram a fina rede da compreensão comum, facilitando o entendimento entre os presentes de que, a partir do intercâmbio entre os povos indígenas, pode-se construir uma fortaleza contra a expropriação dos seus saberes pelo "homem branco".

 


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