Lilian Sales

Lilian Sales: Uma mulher na defesa de seu ambiente

 “Nasci e fui criada na sombra de uma árvore. Não tinha como me desligar dessa minha natureza.”
Lilian Sales dos Santos (Guarda-Parque na Área de Proteção Ambiental da Fazendinha, Macapá – AP).

Três vezes por semana, Lilian Sales sai de casa logo pela manhã e caminha rumo à Área de Proteção Ambiental (APA) da Fazendinha, em Macapá (AP). De sua casa até a mata são menos de 20 minutos a pé. Desde 2004, a amapaense de 29 anos trabalha na unidade de conservação como agente ambiental pelo Instituto Cumaú. Lilian diz que sempre esteve ligada à natureza. “Fui nascida e criada na sombra de uma árvore”, recorda. Mas em 2008, essa relação com o meio ambiente se intensificou. Naquele ano, ela participou do III Curso de Guarda-Parques Estaduais, promovido pela ACT Brasil, em parceria com diversas instituições.

Na edição em que Lilian foi aluna, foram 20 dias de treinamento pesado. Disciplinas práticas como primeiros socorros, resgate aéreo e terrestre, técnicas de sobrevivência na mata, dentre outros, tentavam reproduzir um pouco a vida em campo. A turma era composta, em sua maioria, por homens – 28, contra apenas cinco mulheres. Mas Lilian garante que não encontrou dificuldades com o treinamento e diz até ter gostado mais das matérias práticas pois foram os conteúdos que mais beneficiaram seu dia a dia no trabalho.

Na APA da Fazendinha, ela trabalha com mais quatro agentes e todos já fizeram o treinamento de guarda-parque. Lilian conta que, com a formação, o trabalho na Cumaú ficou mais específico. “Antes a gente trabalhava sem preparo e com isso não podíamos fazer muita coisa. A gente basicamente pegava uma prancheta e um papel e anotava o que visse de errado na mata. Agora temos mais mecanismos para atuar na defesa do parque”.

ROTINA DE GUARDIÃ - O parque da Fazendinha é banhado, ao sul, pelo rio Amazonas e a oeste é limitado pela rodovia Salvador Diniz, o que facilita a entrada de pessoas mal intencionadas. Essa grande quantidade de visitantes no parque acaba aumentando a quantidade de trabalho para os guarda-parques. Segundo Lilian, em todos esses anos de serviço voluntário na mata vários foram os momentos de conflito com invasores. “Às vezes é preciso enfrentar barqueiros que insistem em jogar o lixo da embarcação no rio Amazonas; denunciar tráfico de madeira; bater de frente com pescadores que, ao passar pela mata, aproveitam para caçar animais, entre outros”, lista a guarda-parque.

Lilian conta ainda que já passou por situações de risco, como quando encontrou grupo de jovens usando drogas dentro do parque e eles reagiram partindo para cima dela e dos outros agentes. “Tivemos que correr”, lembra. “Nós não temos poder de polícia, nossa função é sempre conversar, conscientizar e promover a conservação do parque por meio do diálogo”, diz. As rondas no parque da Fazendinha costumam durar cerca de duas horas, mas quando é necessário registrar alguma ocorrência, ou fazer um patrulhamento mais detalhado, Lilian chega a passar o dia na mata. “É um trabalho difícil, mas prazeroso”, completa a jovem.

REPASSAR O CONHECIMENTO - Além do trabalho de fiscalização de todo o parque da Fazendinha, Lilian e seus companheiros guarda-parques desenvolveram um projeto de conscientização da população, com foco nos estudantes de escolas públicas da região. Alunos de cinco e seis anos fazem uma excursão mata a dentro e lá aprendem um pouco sobre a importância de se preservar o meio ambiente e as técnicas para isso. A ideia das aulas de educação ambiental em campo surgiu logo após os agentes participarem do curso de Guarda-Parque. De acordo com Lilian, foi a forma encontrada de repassar para a comunidade um pouco do que havia aprendido no curso.

Para ela, não há dificuldade que a desanime de seu trabalho, que é voluntário. A guarda-parque revela, com sorriso na voz, que o que faz é com amor. A alegria de Lilian é ver a comunidade sendo mudada mediante o trabalho dos guarda-parques. Na campanha que ajudou a realizar logo que retornou do curso, por exemplo, foram recolhidas mais de mil e quinhentas garrafas PET para reciclagem. “Fiquei bastante feliz em ver nossa ação mobilizando as pessoas” comenta.

Quando questionada sobre por que ser guarda-parque, ela alega não encontrar palavras que descrevam os seus motivos. “Por mais que eu não ganhe em dinheiro, ganho em reconhecimento da comunidade. Além disso, tenho a certeza de que estou fazendo o bem. A paz que eu sinto quando entro na mata é indescritível”, finaliza Lilian.

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